18 de novembro de 2009

NASCER POETA
Amaro Vaz


Escrevo meus versos poeta menina
Sentindo uma dor que nunca sofri.
Escrevo ao que chora, escrevo ao que ri
A vida lá fora conduz minha sina.

Mil vezes sorrindo chorei uma rima
Já noutras chorando, no entanto sorri.
Nas coisas da vida um dia entendi:
Na dor se aprende na dor se ensina.

Se a rima anda certa o passo anda torto
O vôo é rasteiro se o mar é meu porto
Navego as alturas por contradição.

Por isso aceito a alcunha de audaz
Que o verso que eu faço a vida é quem faz
Apenas lhe empresto a minha emoção.

Poema-resposta dedicado à irmãzinha poeta
Ana Barreto
MENTIRAS
Amaro Vaz


Te amei, te amei, te amei... tanto eu te amei!
Que tempo não sobrou pra que eu me amasse.
Diante de um espelho a minha face
Era um retrato teu. Agora eu sei!

Te amei, te amei, te amei... Por que te amei?
Se em troca tu me deste o teu disfarce
Por dentro nada tinhas, que eu gostasse
Te amei, te amei, te amei... Por isso errei!

Errei, quando deixei que os teus passos
Seguissem a direção dos meus abraços
Onde constantemente adormecias.

Errei, porque não soube me conter
E agora luto para te esquecer
Te amei, te amei, te amei... Mas tu mentias!

LIMPANDO A ALMA
Amaro Vaz


Você pediu-me, pra eu limpar minha alma
Como se ela fosse o chão de um banheiro
Como se limpa o corpo sob o chuveiro
Você pediu-me, pra eu limpar minha alma.

Pedi um tempo, pra revirar o dentro
E escolher, o que abrigar em mim
Limpar a alma é descartar, enfim...
Os entulhos que lotam o sentimento.

Foi só abrir a porta e lá chegando...
O que não me agradava, eu ia jogando
Num monte de entulhos do passado.

Ao deparar-me com as velhas cicatrizes
Joguei no monte, uma por uma, as infelizes
Estava eu, de alma limpa, enfim curado.
LIMITES
Amaro Vaz


Hoje eu conheço todos os limites
Todas as farsas que a vida oferece
Qual uma aranha que cuidadosa tece
As suas armadilhas, seus convites.

Não sou de jogar fora meus palpites
Por causa do fermento o bolo cresce
A lágrima sabe o olho que a merece
Por isso choram os alegres e os tristes.

Não sou de dar exemplos aos mais novos
Mesmo na minha idade eu piso em ovos
O tempo me ensinou a ser tolerante.

Não sou mais uma criança, um menino
Por isso eu só cavalgo o meu destino
Usando como rédea um barbante.

LIMITE
Amaro Vaz


De pensamentos soltos faço a vida
Não deixo nada, acontecer em vão.
Eu vivo o sim, e vivo inteiro o não
Pois reconheço, ser difícil a lida.

Cabem no bolso as preocupações
Tenho deveres e também direitos.
No ser humano não vejo defeitos
Apenas choques de interpretações.

Só existe o certo, só existe o errado
Porque o limite, que foi desenhado
Só contemplou as coisas da razão.

Fosse mantido o imaginário traço
Creio, que haveria um maior espaço
Pra coisas frágeis, que vêm do coração.

LIBERDADE AINDA QUE EM FATIAS
Amaro Vaz


Quando a mão desprovida, pequenina
Da criança que não soube uma escola.
Faz sinal me pedindo uma esmola
Traz-me do Rio de Janeiro, uma chacina.

Nos jornais, em cada banca, em cada esquina
A comoção se fez presente como agora.
Me dói no peito a mesma dor de outrora
Porque uma dor assim jamais termina.

Porque fui me lembrar desta tragédia?
Talvez seja, porque anda solta a rédea
Porque a Justiça é falha, porque tarda.

Bandidos vão e vêm. Isso é normal!
O que me causa medo e me faz mal
É quando eles se escondem atrás da farda.

5 de novembro de 2009


LEMBRANÇAS III
Amaro vaz


Não me pergunte se já amei um dia
Se eu já tive paixões plenas, ardentes.
Se eu já chorei um mar de mil enchentes
Se eu já sorrri um oceano de alegria.

Eu tive a paz como a maior garantia
De que meus dias não seriam urgentes.
Porque um rio vê seus afluentes
Qual provedores de uma alma vazia.

Amei como quem ama o amor eterno
Tive momentos céu. Tempos inferno!
Tive momentos fama. Tive o chão!

Tive a dor mais forte, mais profunda
Que ainda hoje dói, porque inunda
De tristes lembranças o meu coração.

LEMBRANÇAS II
Amaro Vaz


Manhã de chuva intensa, sol distante
Como é distante aquele amor tão nosso.
Procuro não pensar, mas sei..não posso
A dor da ausência, ainda, me dói bastante.

Tua foto é minha única atenuante
Eu sinto a culpa, é grande o remorso
Por mais que eu fuja, menos eu me esforço
Mais eu me vejo em meu caminho errante.

Me lembro agora daquela noite calma
Que ao vavegar teu corpo, a tua alma
Tiraste os dois pés do chão num vôo solo.

Me lembro bem, dormi como uma criança
Levando na memória, na lembrança
O cheiro de perfume do teu colo.
LEMBRANÇAS I
Amaro Vaz


A sala de jantar cheia de flores
Que se espalharam ao chão depois que o vento.
Entrou sem permissão neste aposento
Beijando sem preguiça as minhas dores.

No quarto entre os lençóis dois cobertores
Me fazem crer que o meu maior momento
Não permitiu que a luz do esquecimento
Pintasse o futuro de outras cores.

Ao lado de uma velha penteadeira
Ao não ser devolvida à cristaleira
Dormia a taça com o vinho teu.

Abri minha janela, bem discreto
Deitei em minha cama olhando o teto
Só ai eu me dei conta. Ela morreu!
LÁGRIMAS NOTURNAS
Amaro Vaz


Entre quatro paredes, as noites passo
Procurando num teto enegrecido.
Um motivo, um sinal, qualquer sentido
Que devolva a certeza de um abraço.

Quando penso em você, vem o cansaço
E ao sono eu me entrego aborrecido.
Já me sinto um prisioneiro, um bandido
Um animal que alguém pegou no laço.

Nada tenho, que me traga a alegria
Sua ausência é a página vazia
De um livro apagado e sem páginas...

Só me resta ouvir a voz de um triste pranto
Que se veste de pseudo-acalanto
Ao me ver derramar as minhas lágrimas.

LÁGRIMAS ARTIFICIAIS
Amaro Vaz

Não mais quero chorar, não quero mais
Deixar que essa tristeza me domine
Que o verbo amar então nos aproxime
Que eu quero os teus sentires mais reais.

Se eu choro por coisinhas tão banais
A mente se acorrenta, se deprime
A culpa, finalmente, se redime
Porque os teus pecados são normais.

Fugir das coisas, que em nós desenhamos
Depois que em nossos corpos tatuamos
O máximo prazer que nos habita.

É o mesmo que voar sobre precipícios
Fantasiar os mais tolos artifícios
É ser um pouco ator, um louco artista.

22 de outubro de 2009

LABIRINTOS II
Amaro Vaz



A nossa vida é um louco labirinto
Nela eu me perco, nela eu me acho
Nela sou um mar e sou um riacho
E sou a consciência e sou o instinto.

Minhas andanças por suas tantas ruas
Resulta, sempre, um novo aprendizado.
Mais eu me envolvo nesse emaranhado
Mais eu conheço as maravilhas suas.

Nesse seu beijo, com gosto de hortelã
É que eu acordo em todas as manhãs
Para defender, de cada dia, o pão.

Por isso eu peço a Deus nas orações:
Preserve os labirintos das emoções
E nunca deixe me faltar a gratidão.

LABIRINTOS

Amaro Vaz




Labirintos eu andei, não tive escolha
Não havia, para mim, outra saída.
Ou cuidava, eu mesmo, da ferida
Ou a deixava crescer como a bolha.

A alma inquieta não vê dificuldade
Nas agruras de uma longa caminhada.
Ela entende, depois que for lavada
Não se deixa iludir pela saudade.

Eu sofri, compreendo... Eu sofri...
E só agora, após tudo, eu entendi
O que a dor de amor já me dizia:

“Vai em frente e não olhe para trás
Que o tempo sozinho lhe compraz,
Dor de amor não resiste à rebeldia”.

JOGO DA VIDA
Amaro vaz



Não te deixes enganar pelas aparências
Pra não seres vista, como o boi, no matadouro.
Se tu te amas, cuida primeiro de teu couro
Só é feliz, quem cumpre algumas exigências:

Mantenhas sempre um olho no peixe o outro no gato
Papai Noel é uma lenda, nunca te esqueças.
Só passam os corpos, se passam as cabeças
Manda mais, quem pode mais. Isto é um fato!

Eu vivi, cinqüenta e cinco anos, na ilusão
Acreditando, que tivesse o céu na mão
Hoje me sinto, qual umbigo de vedete.

Estou por fora de tudo. Não me conheço!
Pra sobreviver, tenho que pagar um alto preço
No jogo da vida eu estou pela bola sete.

INVERNO
Amaro Vaz



A vida é fria. Chegou o inverno!
Roupas pesadas. Muitos cobertores!
O chocolate ganha outros sabores
Vive um pulôver dentro do meu terno.

A tarde é cinza. Faz lembrar o outono!
Falta vontade de sair de casa
Sobram desejos de deitar em brasa
Fica difícil dormir. Mesmo com sono!

Bendito seja o sol de cada dia
Razão da minha grande alegria
De ter o corpo um pouco aquecido.

Bendito o vinho. Bendito o licor!
Sem eles eu não teria o teu amor
Sem teu amor, eu teria morrido.

INVASÃO DEFINITIVA
Amaro Vaz



Me faço nobre, tua casa adentro
Não pelas frestas, nem pelas janelas
Eu vou inteiro, sem as olhadelas
Nas fechaduras do meu pensamento.

Fui convidado, em nome da amizade
Um sentimento uno, entre os seres
Que impõe alguns direitos e deveres
Pra que não cresça nela a falsidade.

Entrei sorrindo, pela porta da frente
Depois que te vi, alegre e sorridente
Braços abertos, pronta pro abraço.

E o velho amigo, coisa mais singela
Que antes usava as frestas da janela
Agora tem na tua casa um espaço.

18 de outubro de 2009

INSPIRAÇÃO
Amaro Vaz


Eu, últimamente, encontro inspiração
Até na chuva que faz o dia escuro.
Nos vôos que me levam além do muro
Num grão de areia perdido no chão.

Me inspiro no teu sim, num simples não
Num beijo ousado, num olhar impuro
No colo que me prometes ser seguro
Num simples adeus, um acenar de mão.

Encontro inspiração, quando o carteiro
Me deixa esperando o dia inteiro
Encontro inspiração até na dor.

Eu, ultimamente, encontro inspiração
Porque fizeste no meu coração
Um ninho de carícias, de amor.

inSANIDADE
Amaro Vaz


Eu desatei o laço, acertei o passo
Fui passageiro de outras caminhadas.
Na mala eu carreguei todos os nadas
Que um dia deram vida ao meu fracasso.

Nenhuma lágrima, sequer um simples traço
De cicatrizes abertas, mal curadas.
Eu mesmo desenhei minhas estradas
Longas, desertas, tristes, descuidadas.

Como entender a mente de quem busca
A luz que faz o dia, a luz que ofusca
Se o brilho tem efeito transitório?

Não há nenhuma dúvida fatal
Você sempre ouvirá: Eu sou normal...
De um louco preso em um sanatório.
ILUSÕES
Amaro Vaz


É tão distante a ausência que nos une
Tão insensato o silêncio que nos fala
Tão sem sentido a paz que o peito cala
Tão triste a dor que nos machuca e pune.

Que a vida em nós apenas se resume
Numa cadeira vazia em plena sala.
Na voz que na garganta morre, entala
O choro corriqueiro, de costume.

Essa distância é mais que um sofrimento
É treva, escuridão, triste lamento
É uma lágrima que desce angustiada.

Para fazer em nós uma tempestade
Ao nos mostrar a triste realidade
De uma mentira que nos leva ao nada.
ILUSÃO DE ÓTICA
Amaro Vaz


Foi coisa de pele, de identidade.
Encheu-me a vida de inspiração.
Trouxe os meus pés de volta ao velho chão
Aos meus escuros trouxe a claridade.

Foi como um corte de faca afiada
Rasgou profundo meu corpo franzino
Mais parecia obra do destino
Como a chuva, que traz a enxurrada.

Virei seu ócio, virei seu passatempo!
O seu brinquedo, o seu contentamento.
Marido, amigo, confidente, irmão.

Tudo acabou. A culpada foi ela!
Ao insistir, em achar, que eu fosse dela
Somente um bicho de estimação.
ILUSÃO
Amaro Vaz


Ilusão é cantiga de ninar
Faz dormir o pensamento consciente.
Muda as cores, mostra tudo diferente
Que é difícil este laço desatar.

Se nos faz rir, também, nos faz chorar
Age sem medo e tão inconseqüente.
Que o iludido, se vê de repente
Com os pés no chão e a mente no ar.

Eu me iludi, depois de muitos anos
Fiz coisas loucas, fiz todos os planos
Cai de quatro, cai de maduro.

Quebrei a cara, conheci o chão.
Perdi o rumo. Perdi a direção!
E só parei, quando bati num muro.

13 de outubro de 2009


HUMANAS FUGAS
Amaro Vaz


Uma criança pura e inocente
Parada no sinal me estende a mão
Como se nos olhos eu trouxesse o pão
Para matar-lhe a fome simplesmente.

Levanto o vidro, escondo o meu rosto
Pra não rever o filme do passado
Ali... naquele posto abandonado
Ficava eu na chuva e ao sol exposto.

Eu fui um malabarista nos sinais
Entregador de pizza e de jornais
Fui, ainda, um jovem delinqüente.

Hoje eu sou um velho rabugento
Por hora, preso no congestionamento
De um passado atroz e humilhante.

HOSPÍCIO II
Amaro Vaz


Não enlouqueça mais, linda menina
Que a loucura é muito traiçoeira
E eu preciso, que me venha inteira
Como um anjo de asa pequenina.

Não enlouqueça o verso, mesmo lindo
Ele me assusta, não posso perdê-la.
Depois que descobri, que é a estrela
Que no meu céu eu vejo reluzindo.

Não enlouqueça, fuja deste hospício
Vem despencar de mim, sou precipício
Sou pára-quedas do teu voar mais lindo.

Não enlouqueça, porque amanheceu
E aquele sonho, que era só meu
Agora é nosso, por isso estou sorrindo.

HOMEMNAGEM
Amaro Vaz


Não cabe o sol nas lágrimas da chuva
Não cabe o beijo em boca delinqüente.
Não pode a maçã, repentinamente
Arroxear-se, pra sentir-se uva.

Não pode o homem, mudar o acontecido
Não pode o fruto, do galho, se ausentar.
Não cabe o riso, se deixar levar
Pela imponência, se fazer vencido.

Não pode nada, que não seja lícito
Porque na lei de Deus está explícito:
Que o homem peca por puro capricho.

O livre arbítrio é uma encruzilhada
Porque a vida corre noutra estrada
Onde o homem quer sentir-se um bicho.


HIPÓCRITA ILUSÃO
Amaro Vaz

Que dor é esta, que teima em se fazer
Presente o tempo inteiro no meu dia?
Que rouba a paz, acaba com a alegria
E toma conta de todo o meu ser?

É dor estranha. É dor que não se ausenta
Que não respeita o triste sentimento.
Que não permite a paz do esquecimento
Pois novos sofrimentos, ela sustenta.

É dor de amor, portanto não tem cura
Transforma em besta humana a criatura
Que, infantilmente, se deixou levar.

Pela ilusão hipócrita e insensível
Pelo brilho translúcido, irresistível
De um lindo sorriso, de um doce olhar.


GUERRA E PAZ
Amaro Vaz


Não é fazendo guerra que a paz
Irá fazer-se forte entre a gente
Nem tudo é uma questão de ir em frente
Às vezes é necessário um passo atrás.

Se você quer bem feito, pega e faz
Assim a vida ensina ao exigente.
Quem quer o fruto, cuida da semente
A árvore, a natureza amiga traz.

Eu não quero virar seu conselheiro
É bem mais porco o dono do chiqueiro
Que o porco que passeia sobre o estrume.

Portanto, me permita outra escolha
Você plantou, bem-vinda: Venha e colha
O fruto que nasceu do seu ciúme.

10 de maio de 2009

GAROTA DE ALUGUEL
Amaro Vaz

 

Pinta a boca com as infinitas cores
De quem mendiga, um prazer alheio.
Teu pão de cada dia é sem recheio
A fome não sacia os teus pudores.

As tuas noites são feitas de calçadas
Em ruas frias de silêncios mórbidos.
Os teus prazeres são desejos sórdidos
Que voam as desumanas madrugadas.

O filho vive o ventre do abandono
Enquanto, no dia, dorme inteiro sono
Aquela atriz a quem cabe o papel.

De dar à vida um preço miserável
Num beijo de sabor tão deplorável
Vendendo o teu corpinho de aluguel.

GAIVOTA
Amaro Vaz


Voe livre gaivota
Que o espaço ainda suporta
As razões de seu voar.
Alce um vôo bem bonito
Que na luz do infinito
Há uma vida de encantar.

Eu também sou gaivota
Que um dia teve à porta
Todos os sonhos do ar.
Mas, meu vôo foi rasante
Algo assim tão degradante
Que me fez estacionar.

Voe livre, gaivota
Que o espaço não tem porta
Nem limites, o seu voar.
Alce um vôo bem ousado
Que a certeza do traçado
Faz perfeito o aterrissar.

Eu também sou gaivota
Que por ter uma asa torta
Nunca esteve em evidência.
Os meus erros do passado
É melhor deixar de lado
Só guardar a experiência.

Voe livre, gaivota
Que o voar é uma porta
Que não se deve fechar.
Alce um vôo alucinado
Que o espaço é um telhado
Feito para lhe abrigar.

Eu também sou gaivota
Que um dia teve à porta
Todos os sonhos do ar.
Mas o medo do espaço 
Fez-se forte, como um laço
Que eu não soube desatar.

GAIOLAS VAZIAS

Amaro Vaz


Passarinhos... Liberte os passarinhos
Mamãe gritava com o seu irmão.
Devolva-lhes o céu, que a escuridão.
De uma gaiola não sabe os seus ninhos.

Passarinhos... Devolva aos passarinhos
O vôo inteiro na imensidão.
Não são as migalhinhas de um pão
Que irão fazer felizes os bichinhos.

Devolva-lhes o céu, a liberdade
Devolve-lhes a inteira identidade
Devolva-lhes ao vôo rotineiro.

Para que eles venham todos os dias
Cantar suas alegres melodias
Na copa de um arbusto em seu terreiro.

FUGA II
Amaro Vaz

O amor é uma caixinha de surpresas
Que todos querem ter o conteúdo.
Por isso é que se diz que "o amor é tudo"
É nossa paz, é nossa fortaleza.

Não encha o seu amor de incertezas
Que, além de cego, ele se faz de surdo.
Infelizmente, quando fica mudo
Não sobra água sobre as correntezas.

O amor só dura o tempo necessário
Conhece a força de seu itinerário
E do amanhã entende os segredos.

Quando a pobreza entra pela porta
Se ele é feito da grana que conforta
Foge o malandro, pelos vão dos dedos.     

FUGA
Amaro Vaz

Cansei de amar um amor enlouquecido
Amor que faz besteiras e faz badernas.
Que ora fala mal, ora diz coisas ternas
Que é um santo, às vezes é bandido.

Cansei de ser amigo, ser o adversário
De estar no céu, logo depois na lama.
De ser, apenas, mais um em tua cama
Cansei de ser real, de ser imaginário.

Cansei de ser o causador das brigas
Cansei de ser remédio pras tuas feridas
Cansei de ser ora imbecil e ora culto.

Ao me cansar de tudo, eu simplesmente
Quero dizer-te amor, que infelizmente
Eu “fui”, sem deixar rastro ou vulto.

1 de abril de 2009

FRUTOS DE QUINTAIS ALHEIOS
Amaro Vaz


Quando, eu leio algo interessante
Trato logo de gritar: Veja que lindo!
Coisas boas acabam refletindo
No que posso encontrar logo adiante.

Leiam isto: “Os opostos se distraem”
É bonito ou não é? Vocês concordam?
E se outros, de repente, lhes abordam
E perguntam: “Os dispostos se atraem.”?

A isso eu chamo de, total, criatividade
Um bordão corriqueiro, na verdade
Ao poeta, coube dar outro sentido.

Deus me deu, o talento de escrever
Deu-me, ainda, a visão pra poder ler
O que escreve o poeta, meu amigo.
FORA DO AR
Amaro Vaz


Escureci a alma. Fechei-me pra balanço
Joguei a toalha. Decretei falência.
E para melhorar a minha aparência
Lavei a sujeira. Mandei tirar o ranço.

Estava imundo, como um cão sem dono
Um traste humano. Digno de dó.
Magro. Doente. Era pele e osso, só
Mal acordava, já me vinha o sono.

Tudo era triste: As pessoas. A rua
O céu. As estrelas. O sol. A lua
As crianças, que brincavam na calçada.

Em tudo eu via a minha parca vida:
Uma tevê com a imagem distorcida
Cheia de chuviscos. Toda embaçada.

FORA DE FOCO
Amaro Vaz


Eu não me reconheço nesta foto
Que você mostra, como sendo nossa.
Quem ama o sofrimento, ama a fossa
E desta santa dor, não sou devoto.

Prefiro estar, distante de nós dois
Fingir, que sou feliz em outros braços.
A ter que dividir os meus espaços
E não caber inteiro em mim depois.

Deixe em paz, que durmam os defuntos
Nós não nascemos, para andarmos juntos
Já não nos resta mais nenhuma chance.

O jogo chegou ao fim: zero a zero
Ninguém perdeu, ninguém ganhou, espero
Que nunca venha, me pedir revanche.

FOME DE APRENDER
Amaro Vaz


A TV se transforma em inimiga
Se ao invés de cultura, traz tragédia.
Sou de tempo, que numa enciclopédia
Aprendíamos a história dessa vida.

Quem podia, comprar uma coleção
Eram os pais abastados, os doutores.
Os gerentes de bancos, os diretores
Comerciantes de atacado e de balcão.

Nos trabalhos exigidos pela escola
A turma inteira, no lugar da velha bola
Ia à casa de um colega pesquisar.

Pra alguns, era essa a grande chance
No final dos trabalhos, hora do lanche
A comida, que em casa, não ia achar.

31 de março de 2009


FIO DA NAVALHA
Amaro Vaz



Quando, eu me vejo “no fio da navalha”
Logo a cabeça, eu sinto fervilhar.
Dá uma vontade grande de pular
Dentro da causa. Na possível falha!


Tudo parece, ser contraditório
O medo cresce. Tudo é sinistro!
Chego, às vezes, me comparar à Cristo
Sendo julgado naquele auditório.


Muitas perguntas vêm. Tudo é treva!
Nenhuma luz. A vida me reserva
Um tempo feito, somente, pra entender.


É neste instante de profunda calma
Que alguma coisa vinda lá da alma
Mostra-me o chão. Então eu volto a viver!


FINGIMENTO

Amaro Vaz


Hoje os meus versos terão a cor da vida
Que a gente enfeita em noites natalinas.
Cansei do cheiro das naftalinas
De uma parede pelo mofo enegrecida.


Trancado assim em mim como um suicida
Eu morro em minhas mórbidas esquinas
Em relações humanas assassinas
Conduzo a minha dor enlouquecida.


O pensamento inventa sentimentos
Que, apenas, para preencher momentos
Corta profundo até chegar aos ossos.


Poetas, somos todos fingidores
Colhemos em vida alheia as suas dores
Como se os sofrimentos fossem nossos.


FINADOS
Amaro Vaz


Copos-de-leite enfeitam os corredores
Velas acesas, choram uma saudade.
Por que o homem tem a necessidade
De dedicar um dia às suas dores?


Por que a morte tanto lhe angustia?
Por que a morte tanto lhe amedronta?
Por que a mala ele não deixa pronta
Já que a viagem acontecerá um dia?


Chorou a vida e hoje chora a morte
Ao pobre homem não é dada a sorte
De conhecer, da morte, os seus mistérios.


Por isso vem chorar todos os anos
Suas angústias, os seus desenganos
Nas capelinhas de muitos cemitérios.


FIM DE TARDE
Amaro Vaz


Meu corpo esteve preso ao teu corpo
Como se fosse o visgo e o passarinho.
Como se fosse o anzol e o peixinho
Como se fosse um barco e o porto.


Assim ele passou uma tarde inteira
Para matar uma grande saudade.
Para viver nossa maior verdade:
O nosso amor não era brincadeira.


Vida maluca. Vida complicada
Altera a rota, e sem nos dizer nada
Põe o passado dentro do presente.


Vida serena. Vida abençoada!
Põe nossos sonhos na velha estrada
Que um dia abrigou os pés da gente.

FIM DE FOSSA
Amaro vaz


Enquanto o disco de Ana Carolina!
Me faz lembrar do amor que nos uniu.
Vou ao passado. É primeiro de abril!
O dia da mentira. Que triste sina!


Segunda-feira morna. Nada me anima!
Me sinto um cão sem dono. O meu canil!
Alguém mandou pra puta que o pariu!
Nele cagou. Jogou terra por cima!


Meu verso hoje é triste, é verso pobre!
Perdeu o jeito pomposo, às vezes nobre
Desceu ladeira abaixo, foi ao chão.


Somente hoje hoje eu choro. Nunca mais!
Em tempo algum. Never. Nunca. Jamais!
Irão brincar com o meu coração.


FERRÃO DE ABELHA

Amaro Vaz


Prefiro o sofrimento mais profundo
A ter que estar em suas algazarras.
Não quero ser motivo dessas farras
Que enfeitam o seu triste submundo.


Quero cuidar do meu próprio jardim
Colher a flor, que eu mesmo semeei.
Ter a certeza, de que não mais verei
Sua tatuagem impregnada em mim.


Cansei de ser um ator coadjuvante
O seu laranja, a escada rolante
Vou representar agora outro papel.


Pode esquecer essas velhas picuinhas
Numa colméia com duas rainhas
As operárias não voam um doce mel.

29 de março de 2009

FELIZ GESTO VELHO
Amaro Vaz


Ano Novo é sempre assim: Novos caminhos,
Novos sonhos, promessas de mudanças.
Renovadas todas as nossas esperanças
Surgem rosas, onde antes havia espinhos.


Ano Novo é recomeço. É simplesmente
A certeza de que tudo irá mudar.
Seja o gesto. Seja a visão. Seja o olhar!
Novo fruto há de vir dessa semente.


Inocente, o sentimento irmandade.
Nossa alma, nossa mente, a tudo invade
Transformando o ser humano em benfeitor.


Tudo dura poucos dias. Triste ironia!
Mal o mês de janeiro se inicia
Voltam o medo, a guerra, o ódio, o rancor.
FÉ CEGA
Amaro Vaz


Trago de volta as velhas confidências
Querendo crer, que tudo irá mudar.
Eu boto os sonhos velhos, pra esquentar
Visto as roupas das velhas inocências.

Sou um menino, que não se viu crescer
Que no trabalho plantou suas verdades.
Que nunca disse, ter necessidades
Que viveu a vida, apenas, por viver.

Tive momentos bons. Mas tive tantos...
Momentos tristes, muitos desencantos
Que, sempre, penso: Tudo tem um fim!

Hoje ao ver minha mulher, meus filhos
Todos seguindo meus passos,os trilhos.
Mais acredito: Deus cuidou de mim!

Amaro Vaz


Dizem que tudo na vida é relativo
O tempo, o sentimento, o que temos.
É relativo até o que entendemos
Seja pleno, seja definitivo.

Quem fez a regra foi bem taxativo:
É relativo até o que perdemos.
É relativo o mundo em que vivemos
Nem mesmo a morte é fato conclusivo.

Questionamentos... Só questionamentos!
São relativos os Dez Mandamentos?
A criação do mundo é relativa?

Hoje eu vi uma rosa se abrindo
Coisa mais linda. A vida me sorrindo!
Obra de Deus, portanto conclusiva!

23 de março de 2009

FARDOS
Amaro Vaz


Ao descobrir que o fardo era pesado
Tratou de desfazer de alguns valores.
Lançou estrada afora alguns pudores
Algumas ilusões jogou de lado.

Assim vivem o presente e o passado
Ambos se enxergam como perdedores.
Às vezes eles se chamam de traidores
E isso torna o que é fácil, complicado.

Não há ninguém, que seja retilíneo
Que algumas vezes não teve o declínio
De achar que o passado é mais bonito.

Triste ironia. A vida é um cinema!
Quando me vejo diante dessa cena
Eu nada faço, apenas, canto e grito!
FALAR DE AMOR
Amaro Vaz

Falar de amor me deixa constrangido
Porque meu grande amor não me pertence.
Embora apaixonado, ainda, pense
Que eu possa ser teu caso proibido.

Falar deste amor, ora bandido
É algo tão fugaz, quanto circense.
Se a lágrima me dói, o riso vence
E rir da própria dor é permitido.

Como explicar ao amor o sentimento
Que espera a vinda de um novo tempo
Para viver feliz e sem barreiras?

Falar de amor é isso, simplesmente
Acreditar que um dia. Lá na frente...
Nossas paixões vão se entregar inteiras.
FALAR DE AMOR
Amaro Vaz

Mamãe me ensinou a amar, amando
Porque ela entendia que o amor
É como, no jardim, a linda flor
Que a nossa emoção vai cultivando.

Eu amo amar o amor mais engraçado
Não tenho medo de amar e de ser bobo
Quem ama a fonte, também ama o lodo
Ama o correto e ama, ainda, o errado.

Dizem que amar é um verbo intransitivo
Por isso eu vivo o amor, que mais preciso
O amor da mãe, mulher, esposa, amiga.

Porque o amor é assim como a fogueira
Queima o egoísmo e a chaga inteira
Pra enfumaçar de amor a nossa vida.
FÁCIL DIZER
Amaro Vaz


Fácil dizer “te amo”
Quando as coisas vão bem...
Se a lua aparece inteira e serena
Diante de nossos olhares apaixonados.
Fácil dizer “te amo”
Quando nada tememos na vida
Se a confiança é uma conquista verdadeira
Que promete-nos uma tranqüilidade futura
E, seguramente, duradoura.
Fácil dizer “te amo”
Quando as crianças podem brincar
Sob o olhar atento de uma babá.
Se - no banco - nossa conta conjunta
Oferece-nos a oportunidade sonhada: férias na Europa...
Fácil dizer “te amo”
Quando a geladeira está cheia
E o carro à disposição na garagem
Para os tradicionais passeios
Ao clube de campo preferido.
Fácil dizer “te amo”
Quando me olhas com essa carinha de anjo
E - bem de mansinho- te despes de todas as preocupações
De um dia tumultuado - cansativo e chuvoso.
Quando o que os outros pensam e dizem sobre nós
É capaz de levar-nos a gostosas gargalhadas.
Fácil dizer “te amo”
Quando não nos interrompem os passos...
Quando não nos cegam os olhos...
Quando não nos calam a voz...
Caso contrário...
Deixa-me no meu canto e busques acomodar-te no teu canto.
Faças e deixa-me fazer e cometer as minhas próprias burrices.
Para que o nosso amor - um dia tão intenso -
TENHA PELO MENOS O DIREITO DE MORRER EM PAZ.
FACA DO TEMPO
Amaro Vaz
O passado é uma faca afiada
Fere fundo em nossa carne, vai ao osso.
No mais velho faz o tempo em que era moço
Parecer brincadeira, uma piada.

Eu que tive uma vida desregrada
Sou forçado a sentir sabor insosso.
Uma corda entrelaçada no pescoço
Vem mostrar uma certeza: Somos nada!

Minha mente já não tem o raciocínio
Minhas mãos já perderam o domínio
Sobre as coisas que eu tento segurar.

Foi-se o tempo em que eu era um colosso
Hoje eu tenho que vender o meu almoço
Para ter assegurado o meu jantar.

19 de março de 2009

FACA AFIADA
Amaro Vaz


Cravou-me uma faca em pleno peito
Feriu profundo o meu coração.
Bateu com força na recordação
Falou-me que eu não tinha o direito.


De impedir que crescesse perfeito
No ventre, o fruto de uma união.
A insensatez mudou a direção
Agora é tarde, já não tem mais jeito.


Como fazer para mudar a história?
Como apagar as sombras da memória?
Me poupe dessa dor tão violenta.


Não quero mais viver constantemente
Preso ao passado, preso à semente
Que dói, machuca, fere, atormenta.