11 de dezembro de 2010

CORAÇÃO VIOLADO
Amaro Vaz



Um coração que é gaiola e janela
É mais que um coração, é um complexo
É mais que o sentir, num simples verso
O beijo torto que a paixão revela.

É coração que vem à boca, de feliz
Tamanha a emoção acomodada
Quer minha fala, se sentir aprisionada
Por este coração, ela nos diz.

Quando em janela, eu sei que voarei
Outras moradas, mas sempre estarei
De volta ao ninho, no final da tarde.

Quando em gaiola, eu dormirei sereno
O justo sono, na paz, calmo e sereno
Porque não é preso, quem ousa a liberdade.
AVE SOLITÁRIA
Amaro Vaz


A nossa felicidade
Fugiu na cauda do vento.
Deixando, apenas, saudade
Nas coisas do sentimento.

Não deu-me a oportunidade
De mostrar ao pensamento.
Que e o escuro e a claridade
Vivem ao sabor do vento.

Hoje eu choro a desventura
Os horrores da amargura
De uma triste e grande dor.

Qual ave de arribação
Deixo que o meu coração
Acalme esse louco amor.


A POESIA
Amaro Vaz


Aos irmãos Jenário e Ana Barreto

Com a poesia eu aprendi que a amizade
Tem quase sempre a feição de um santo.
Por isso é cheia de prazer, encanto
É a contracapa da felicidade.

Quando é fundamentada na verdade
Tem o dom divino de secar um pranto.
A voz maravilhosa de um acalanto
A primazia de ser a nossa metade.

Com a poesia eu aprendi que o sentimento
É como um sonho, que se perdeu no tempo
Para amadurecer bem devagar.

Com a poesia eu aprendi, faz alguns anos
Que não sou escravo da dor, dos desenganos
E que somente em versos sei chorar.

14 de março de 2010

NARIZ EMPINADO
Amaro Vaz


Meu verso alegre, enfim se manifesta
E me leva a ousar novas tendências.
Deixar de lamentar tuas ausências
Será pra mim motivo de uma festa.

O peito era um canteiro de tristezas
Que eu regava com as tristes lágrimas.
Só escrevia nas saudosas páginas
De um livro feito à luz das incertezas.

Ao descobrir-me sem o meu passado
Confesso-me, um pouco atrapalhado
Porém, posso gritar que sou feliz.

Já posso ir e vir, sem o teu passo
A minha caminhada agora eu traço
Sou dono, enfim, do meu próprio nariz.

MÃOS
Amaro Vaz




Há mão de seda, há mão de pelúcia
Há mão que faz o bem, que faz o mal.
Há mão que põe o doce, que põe o sal
Há mão que é timidez, que é astúcia.


Há mão que apedreja, há mão que afaga
Há mão que é semente, que é chão.
Há mão que é sentimento, que é razão
Há mão que é antídoto, que é praga.


Há mão que é agressão, que é carícia.
Há mão que é direção, que é malícia
Há mão que é treva, mão que é luz.


Há mão que é imensa que é pequena
Há mão que, com prazer, recria a cena.
Da mão que fez o prego e fez a cruz.

MÃE GENTILEZA
Amaro Vaz


Em meio a chuvas, muitas tempestades
Cordata, submissa e servil.
Caminha a nossa pátria mãe gentil
Pelas favelas das suas cidades.

Em se plantando, nela tudo dá!
Coisas bonitas, um povo varonil.
Até um presidente que não viu
Os picaretas do lado de cá.

Enquanto a Bolsa Escola faz a festa
Todos se calam e ninguém contesta
A honra cede espaço ao cinismo.

Os dias preguiçosos vão passando
E o povo, sem trabalho, esperando
Pela esmola do assistencialismo.

LUGARES AUSENTES
Amaro Vaz


Fez-se tormenta, o mar que eu navegava
Escuridão, a luz que em mim reluzia
Fez-se mais triste a minha alegria.
Fez-se ausência a paz que eu habitava.

Silenciou-se o verso, que chegava
Para trazer-me o sol de cada dia.
Não mais existe a tua companhia
Teus lindos versos, a tua poesia.

Tudo se fez escuro, noite densa
No exato instante em que a alma pensa
Que os dias seriam todos coloridos.

Minha emoção perdeu-se no caminho
Não tenho mais ninguém, ando sozinho
Lugares mórbidos, lugares perdidos.

10 de fevereiro de 2010


LIVRE ARBÍTRIO
Amaro Vaz


Quer o amor, dormir em outros braços
Pra acordar, cansado em novas camas.
Pra se aquecer feliz em outras chamas
Quer o amor, a busca de outros passos.

Quer o amor, dormir em outros corpos
Sentir o beijo das bocas mais vulgares.
Quer o amor, estar em todos os lugares
Para acordar inteiro em outros portos.

Quer o amor, sentir-se livre e solto
Porque se acha santo e vê-se envolto
No imune manto da plena liberdade.

Ele não sabe, que em bem pouco tempo
Será um amor, abandonado ao relento
Sujeito à chuva, sujeito à tempestade.

EMBOSCADA
Amaro Vaz


Como a coruja que se faz de morta
Para iludir a presa descuidada
Vejo você sentada em minha porta
Dizendo-se perdida, apaixonada.

Sei que você, comigo não se importa
Que sempre me prepara uma emboscada.
Que só procura o que lhe apraz, conforta
Como se eu fosse tudo, fosse um nada.

Não quero mais ouvir os seus lamentos
Não vão me convencer seus argumentos
Do nosso amor não guardo mais os traços.

Pode voar em paz, pode ir com Deus
Que em mim não cabem mais os sonhos seus
Já sou senhor seguro dos meus passos.
COISAS DA SAUDADE
Amaro Vaz

Amanheci disperso, displicente
Distante dos meus hábitos normais.
Não quis ler as noticias dos jornais.
Não quis ver nada, que lembrasse a gente.

Uma por uma eu pus em minha frente
As coisas dos meus dias mais banais.
Algumas pareciam naturais
Já outras pareciam bem diferentes.

Sei que o passado deixa em sua estrada
Desenhos obscuros, um quase nada
Se a mente dorme à luz do esquecimento.

Assim amanheci: longe de mim!
Quando assustei, estava perto o fim
Só de lembranças vivia o sentimento.

BRINCADEIRA DE RODA
Amaro Vaz


Diz a canção de uma nova novela:
Como se fora brincadeira de roda...
Canção antiga é a última moda
Nada de novo a arte nos revela.

De onde nada vem, tudo se espera
É tanta coisa ruim amigo, é foda!
A mídia nem ai... Não se incomoda
Latinos são os reis da nova era.

Hoje ao cantarolar Chico Buarque
O coração sentiu um, quase ataque
Por causa de um poema forte e trágico.

Caiu da construção e na calçada
Morreu sem terminar sua jornada
Na contramão atrapalhando o tráfego.

A COR DO AMOR
Amaro Vaz


Em tudo ela mexe. Tudo ela consegue
Quando ordena, eu simplesmente obedeço.
Se ela briga, é com razão sempre, mereço
Vivo tentando lhe vender gato por lebre.

Volto pra casa, cansado do trabalho
Ela sorri feliz e lá de dentro grita:
Estava sem fome, veio cheia a marmita
Já sei... De novo eu abusei do sal, do alho!

Assim vivemos constantes brincadeiras
São nossas coisas completas, verdadeiras
A falsidade não habita entre nós.

Somos frutos da paz, por isso o nosso amor
Além de muita alegria e uma linda cor
Tem um só canto, e tem apenas uma voz.

23 de janeiro de 2010


SONHO EXAGERADO
Amaro Vaz


Peguei o sonho que aconteceu
No meu silêncio vago e solitário
Acomodei no meu imaginário
Para que fosse algo sempre meu.

Porque ao sonho é dado entender
Que a esperança sempre nos socorre.
Dizer que ela é a última que morre
Soa esquisito, pra quem só quer viver.

Nosso melhor momento é o presente
E aquelas coisas que a gente sente
Tendo o futuro como um aliado.

Não me entenda mal, deixa rolar
Somente o tempo pode nos mostrar
Qual de nós dois sonhou exagerado.

PRIMEIRO DE ABRIL
Amaro Vaz


Dormir nas ondas da tua madrugada
Foi como adormecer junto com o dia
De um barco que navega a calmaria
Em busca de um porto, uma parada.

Dormi sem medo daqueles vendavais
Que assustavam as noites do passado.
Eu era em ti, um barco ancorado
Em tuas amarras, ali naquele cais.

Amanheceu. De volta a realidade
Ao ver meu barco numa tempestade
Foi neste instante, que a ficha caiu.

Até no sonho, o mais lindo que já tive
Tu me apresentas a velha reprise
Daquele triste primeiro de abril.

PEQUENAS DIFERENÇAS, GRANDES NEGÓCIOS
Amaro Vaz


Se eu lhe digo, que estou apaixonado
Ela responde que sou um mentiroso.
E neste inferno astral tão tenebroso
Vamos vivendo o nosso amor malvado.

Quando eu quero, ela me diz: tô fora...
Se eu não posso, ela quer comparecer.
A gente se completa e se faz merecer
Porque gostamos desse rala-e-rola.

Dorme de dia e passa a noite em claro
Fazer amor comigo, é algo muito raro
Eu finjo estar morto, se ela me procura.

Porque o amor, pra não ser rotineiro
Tem que ser meio “pau de galinheiro”
Metade abelha e metade tanajura.

REENTRÂNCIAS

Amaro Vaz

Faz muitos anos, eu era menino
Você era uma linda criancinha.
Usava nos cabelos uma trancinha
Cuidava de nós dois o tal destino.

A gente freqüentava a mesma escola
E as lições eu sempre lhe ensinava
Enquanto eu arrastava a minha asa
Você fingia, que não me dava bola.

Assim vivemos a primeira infância
Sem os arroubos de insignificância
Que enfeita a vida, de quem já cresceu.

Hoje casada e mãe de dois filhos
Aquela amiga dos dias mais tranqüilos
Dorme e acorda no mesmo sonho meu.

NÓS DOIS

Amaro Vaz

Adoro ver as horas passeando
Pelo relógio, sempre apressadas.
A cada vinte e quatro badaladas
Um novo e lindo dia vão pintando.

Parecem essas horas o sentimento
Que nos envolve inteiro o coração
A cada badalada uma emoção
Invade a imensidão do pensamento.

Como um relógio, eu sou um refém
Daquelas horas, que você meu bem
Enche o meu tempo de paz e alegria.

Por isso nunca limite essas jornadas
Porque as horas, mesmo apressadas
Sempre dão conta de terminar o dia.

SIMPLESMENTE AMOR
Amaro Vaz

Não me perguntes se, no amor, eu creio
Porque já sabes, o que eu irei dizer.
Eu vivo o amor e nele eu vou crer
Porque, de amar, não tenho receio.

O amor é o bem maior da humanidade
Das coisas de Deus é a melhor herança.
Por isso o homem à sua semelhança
Criou o Pai, não negue esta verdade.

Enquanto amor houver, há esperança
E quem espera amigo, sempre alcança
Sobre o amor, não me perguntes nada.

Deixe que eu morra de amor demais
Principalmente, porque não cabe mais
Um novo amor nessa minha estrada.

OS DEZ MANDAMENTOS
Amaro Vaz

É bom lembrar das tardes de domingo
Na pequena sala do Cine Mocambo
Não existia, naquele tempo, o Rambo.
Os Dez Mandamentos, o filme, era lindo.

Trocar revistas, o maior divertimento.
Da meninada em busca de aventura
Os nossos saberes, eram uma mistura
De aprendizado com entretenimento.

Hoje ao passar na praça da estação
O olhar encontra o velho casarão
E na memória uma cena eu repito:

Moisés, portando um simples cajado
Divide ao meio o mar bravo e agitado
Para fugir, com o seu povo, do Egito.

O PALCO DO POETA
Amaro Vaz

Todo poeta é um delinqüente ator
Que leva ao palco-vida a ironia
Se um dia vê tristeza na alegria
No outro gargalhadas, vê na dor.

Sou um poeta-ator e me apresento
Contracenando com a felicidade
Não mais escrevo versos à saudade
Somente ao riso e ao contentamento.

Quero no palco representar a luz
Cansei de carregar a pesada cruz
Do desamor e da desesperança.

Cansei de escrever versos errantes
Por isso aos atores coadjuvantes
Eu deixo a velha dor como herança.

REENCONTROS
Amaro Vaz

Com giz de cera desenhei um arco-íris
No céu cinzento da nossa rotina
Fiz o café, servi o leite e a vitamina
E sobre a mesa, pus as xícaras e os pires.

Na sala, e em nosso quarto, eu pus flores
Seu banho eu preparei na hidromassagem
A bíblia aberta, naquela tal passagem.
Que nos remete a Cristo e suas dores.

Pensei comigo... O amor não envelhece
Se o amor se acende, o amor se aquece
Declaro aceso o nosso amor pra sempre.

E com o mesmo giz de cera, na parede...
Eu desenhei uma bonita e grande rede
Pra gente se amar, como antigamente.

TELHADO DE VIDRO

Amaro Vaz


Se você quer viver o quintal alheio
Melhor mandar limpar sua vidraça
Porque o olhar da gente, se embaça
Quando o vidro da janela, é sujo e feio.

Esquece o seu vizinho, o semelhante
Procure ver, dentro de si, suas façanhas
Quem busca falcatruas e artimanhas
Enforca-se... num pedaço de barbante.

Preocupe-se amigo, com as telhas...
Que cobrem seu telhado, posso vê-las
Desprotegidas, sob um sol ardente.

Viver é uma gostosa brincadeira
Se a visão translúcida e sem poeira
Permite-nos um olhar limpo e decente.

14 de janeiro de 2010

MÃE
Amaro Vaz


Quem pode lhe abraçar, que o faça agora
Antes que a dor, demais, de uma saudade
Escreva nos anais da realidade:
“Querido filho, chegou a minha hora!”

Quem pode lhe abraçar, vá sem demora
Antes que a dor, demais, de uma verdade
Escreva: “ Dei-lhe uma oportunidade...
Não quis aproveitar, lamenta e chora!

Eu sofro, eu sei, não poderei jamais
Mudar a história, com coisas banais
Gastei parte do tempo de nós dois.

Quem pode lhe abraçar, que o faça urgente
Que o tempo é como uma cruel serpente
Não dê-lhe a chance de se vingar depois.
O AMOR II
Amaro Vaz


O amor é como o pão de cada dia
É como o cobertor, que nos aquece
O bolo que, dentro do forno, cresce
A fonte que a nossa sede sacia.

O amor é como aquela melodia
Que a gente ouve uma vez e não se esquece.
É como a artimanha, onde se tece
Um mundo de prazer e de alegria.

O amor é como a estrela lá no céu
Mesmo cadente traça um lindo véu
Que enfeita as nossas noites rotineiras.

O amor é como as flores de um canteiro
Nas mãos de cuidadoso jardineiro
Não temem os espinhos das roseiras.

NOITES DE LUZ
Amaro Vaz


Uma estrela eu vi cruzar o céu
E despencar atrás daquele morro
Não deu pra ouvir, se pedia socorro
Só pude ver que tinha um lindo véu.

Durou seu vôo um segundo exato
Tamanha a rapidez que ela imprimia
Se eu piscasse os olhos, não veria
Toda beleza de um simples ato.

Alguém me disse que ela é cadente
Brigou com o céu, triste e descontente
Veio na terra buscar contentamento.

Se eu soubesse a língua das estrelas
Talvez pudesse, um dia, convencê-las
Que aqui na Terra, também, há sofrimento.

DIÁLOGO
Amaro Vaz

Entendo, Paquetá, teu sofrimento
Também me sinto ilhado pela vida.
Meu mar é uma lágrima sentida
Somente solidão me traz o vento.

Se o tempo te roubou o encantamento
-se a fama sentes triste e combalida-
Não penses que a batalha está perdida
Terás de volta o velho alumbramento.

A dor que te entristece vem do tédio?
Podemos prescrever-te um bom remédio?
Permite-nos, levar-te a poesia?

Não há nenhuma contra-indicação
-a bula cita, apenas, sensação-
De que ninguém roubou-te a euforia.

CERTEZA
Amaro Vaz

Constrói em nossa volta um imenso muro
A vida. Essa caixinha de surpresas!
E cheios de perguntas, incertezas
Vivemos como cegos, no escuro.

Tentando desvendar nosso futuro
Há sempre alguém que usa de espertezas.
Com velas coloridas sobre as mesas
Promete um amanhã mais lindo e puro.

Ciganos, cartomantes, futuristas
Com bolas de cristal, com ametistas
Arvoram-se em saber a nossa sorte.

São tantas as perguntas sem respostas
Que vejo muita gente dar as costas
À única certeza que é a morte.

7 de dezembro de 2009

VELHICE
Amaro Vaz


Tantos pardais, - nenhuma andorinha-
Vejo nas praças da minha velhice
Vem a saudade, eu vôo à meninice
E ao voar, tremula a velha asinha.

Cresci, envelheci, eu sei... dignamente
Por isso eu me orgulho do passado
Até aquele antigo passo errado
Promove o conhecer-me plenamente.

Voltando às andorinhas de outrora
Eu tento descobrir o dia e a hora
Do vôo cego... da minha despedida.

Espero, que não me expulsem, os pardais
Sou uma velha andorinha, nada mais...
Deixe-me, em paz, dizer adeus à vida.

PAIXÕES ANÁRQUICAS
Amaro Vaz


O teu amor era uma gota de orvalho
Um quase nada, um gostar pequeno
Soubesse eu... Que eras filha do sereno
Jamais, me permitiria este ato falho.

Só mesmo um cara louco, um delinqüente
Pra se envolver com uma gota abandonada
Na ponta da roseira, no galho pendurada
Exposta o sol, para morrer mais quente.

De hoje em diante, serei bem mais atento
Vou namorar a brisa.... a irmã do vento
Que vem me visitar todos os dias.

Sempre correndo, eu sei, ela volta sempre
Para dizer, que me ama, e eu tão carente
Dou crédito às novas e loucas fantasias.