23 de janeiro de 2010


SONHO EXAGERADO
Amaro Vaz


Peguei o sonho que aconteceu
No meu silêncio vago e solitário
Acomodei no meu imaginário
Para que fosse algo sempre meu.

Porque ao sonho é dado entender
Que a esperança sempre nos socorre.
Dizer que ela é a última que morre
Soa esquisito, pra quem só quer viver.

Nosso melhor momento é o presente
E aquelas coisas que a gente sente
Tendo o futuro como um aliado.

Não me entenda mal, deixa rolar
Somente o tempo pode nos mostrar
Qual de nós dois sonhou exagerado.

PRIMEIRO DE ABRIL
Amaro Vaz


Dormir nas ondas da tua madrugada
Foi como adormecer junto com o dia
De um barco que navega a calmaria
Em busca de um porto, uma parada.

Dormi sem medo daqueles vendavais
Que assustavam as noites do passado.
Eu era em ti, um barco ancorado
Em tuas amarras, ali naquele cais.

Amanheceu. De volta a realidade
Ao ver meu barco numa tempestade
Foi neste instante, que a ficha caiu.

Até no sonho, o mais lindo que já tive
Tu me apresentas a velha reprise
Daquele triste primeiro de abril.

PEQUENAS DIFERENÇAS, GRANDES NEGÓCIOS
Amaro Vaz


Se eu lhe digo, que estou apaixonado
Ela responde que sou um mentiroso.
E neste inferno astral tão tenebroso
Vamos vivendo o nosso amor malvado.

Quando eu quero, ela me diz: tô fora...
Se eu não posso, ela quer comparecer.
A gente se completa e se faz merecer
Porque gostamos desse rala-e-rola.

Dorme de dia e passa a noite em claro
Fazer amor comigo, é algo muito raro
Eu finjo estar morto, se ela me procura.

Porque o amor, pra não ser rotineiro
Tem que ser meio “pau de galinheiro”
Metade abelha e metade tanajura.

REENTRÂNCIAS

Amaro Vaz

Faz muitos anos, eu era menino
Você era uma linda criancinha.
Usava nos cabelos uma trancinha
Cuidava de nós dois o tal destino.

A gente freqüentava a mesma escola
E as lições eu sempre lhe ensinava
Enquanto eu arrastava a minha asa
Você fingia, que não me dava bola.

Assim vivemos a primeira infância
Sem os arroubos de insignificância
Que enfeita a vida, de quem já cresceu.

Hoje casada e mãe de dois filhos
Aquela amiga dos dias mais tranqüilos
Dorme e acorda no mesmo sonho meu.

NÓS DOIS

Amaro Vaz

Adoro ver as horas passeando
Pelo relógio, sempre apressadas.
A cada vinte e quatro badaladas
Um novo e lindo dia vão pintando.

Parecem essas horas o sentimento
Que nos envolve inteiro o coração
A cada badalada uma emoção
Invade a imensidão do pensamento.

Como um relógio, eu sou um refém
Daquelas horas, que você meu bem
Enche o meu tempo de paz e alegria.

Por isso nunca limite essas jornadas
Porque as horas, mesmo apressadas
Sempre dão conta de terminar o dia.

SIMPLESMENTE AMOR
Amaro Vaz

Não me perguntes se, no amor, eu creio
Porque já sabes, o que eu irei dizer.
Eu vivo o amor e nele eu vou crer
Porque, de amar, não tenho receio.

O amor é o bem maior da humanidade
Das coisas de Deus é a melhor herança.
Por isso o homem à sua semelhança
Criou o Pai, não negue esta verdade.

Enquanto amor houver, há esperança
E quem espera amigo, sempre alcança
Sobre o amor, não me perguntes nada.

Deixe que eu morra de amor demais
Principalmente, porque não cabe mais
Um novo amor nessa minha estrada.

OS DEZ MANDAMENTOS
Amaro Vaz

É bom lembrar das tardes de domingo
Na pequena sala do Cine Mocambo
Não existia, naquele tempo, o Rambo.
Os Dez Mandamentos, o filme, era lindo.

Trocar revistas, o maior divertimento.
Da meninada em busca de aventura
Os nossos saberes, eram uma mistura
De aprendizado com entretenimento.

Hoje ao passar na praça da estação
O olhar encontra o velho casarão
E na memória uma cena eu repito:

Moisés, portando um simples cajado
Divide ao meio o mar bravo e agitado
Para fugir, com o seu povo, do Egito.

O PALCO DO POETA
Amaro Vaz

Todo poeta é um delinqüente ator
Que leva ao palco-vida a ironia
Se um dia vê tristeza na alegria
No outro gargalhadas, vê na dor.

Sou um poeta-ator e me apresento
Contracenando com a felicidade
Não mais escrevo versos à saudade
Somente ao riso e ao contentamento.

Quero no palco representar a luz
Cansei de carregar a pesada cruz
Do desamor e da desesperança.

Cansei de escrever versos errantes
Por isso aos atores coadjuvantes
Eu deixo a velha dor como herança.

REENCONTROS
Amaro Vaz

Com giz de cera desenhei um arco-íris
No céu cinzento da nossa rotina
Fiz o café, servi o leite e a vitamina
E sobre a mesa, pus as xícaras e os pires.

Na sala, e em nosso quarto, eu pus flores
Seu banho eu preparei na hidromassagem
A bíblia aberta, naquela tal passagem.
Que nos remete a Cristo e suas dores.

Pensei comigo... O amor não envelhece
Se o amor se acende, o amor se aquece
Declaro aceso o nosso amor pra sempre.

E com o mesmo giz de cera, na parede...
Eu desenhei uma bonita e grande rede
Pra gente se amar, como antigamente.

TELHADO DE VIDRO

Amaro Vaz


Se você quer viver o quintal alheio
Melhor mandar limpar sua vidraça
Porque o olhar da gente, se embaça
Quando o vidro da janela, é sujo e feio.

Esquece o seu vizinho, o semelhante
Procure ver, dentro de si, suas façanhas
Quem busca falcatruas e artimanhas
Enforca-se... num pedaço de barbante.

Preocupe-se amigo, com as telhas...
Que cobrem seu telhado, posso vê-las
Desprotegidas, sob um sol ardente.

Viver é uma gostosa brincadeira
Se a visão translúcida e sem poeira
Permite-nos um olhar limpo e decente.

14 de janeiro de 2010

MÃE
Amaro Vaz


Quem pode lhe abraçar, que o faça agora
Antes que a dor, demais, de uma saudade
Escreva nos anais da realidade:
“Querido filho, chegou a minha hora!”

Quem pode lhe abraçar, vá sem demora
Antes que a dor, demais, de uma verdade
Escreva: “ Dei-lhe uma oportunidade...
Não quis aproveitar, lamenta e chora!

Eu sofro, eu sei, não poderei jamais
Mudar a história, com coisas banais
Gastei parte do tempo de nós dois.

Quem pode lhe abraçar, que o faça urgente
Que o tempo é como uma cruel serpente
Não dê-lhe a chance de se vingar depois.
O AMOR II
Amaro Vaz


O amor é como o pão de cada dia
É como o cobertor, que nos aquece
O bolo que, dentro do forno, cresce
A fonte que a nossa sede sacia.

O amor é como aquela melodia
Que a gente ouve uma vez e não se esquece.
É como a artimanha, onde se tece
Um mundo de prazer e de alegria.

O amor é como a estrela lá no céu
Mesmo cadente traça um lindo véu
Que enfeita as nossas noites rotineiras.

O amor é como as flores de um canteiro
Nas mãos de cuidadoso jardineiro
Não temem os espinhos das roseiras.

NOITES DE LUZ
Amaro Vaz


Uma estrela eu vi cruzar o céu
E despencar atrás daquele morro
Não deu pra ouvir, se pedia socorro
Só pude ver que tinha um lindo véu.

Durou seu vôo um segundo exato
Tamanha a rapidez que ela imprimia
Se eu piscasse os olhos, não veria
Toda beleza de um simples ato.

Alguém me disse que ela é cadente
Brigou com o céu, triste e descontente
Veio na terra buscar contentamento.

Se eu soubesse a língua das estrelas
Talvez pudesse, um dia, convencê-las
Que aqui na Terra, também, há sofrimento.

DIÁLOGO
Amaro Vaz

Entendo, Paquetá, teu sofrimento
Também me sinto ilhado pela vida.
Meu mar é uma lágrima sentida
Somente solidão me traz o vento.

Se o tempo te roubou o encantamento
-se a fama sentes triste e combalida-
Não penses que a batalha está perdida
Terás de volta o velho alumbramento.

A dor que te entristece vem do tédio?
Podemos prescrever-te um bom remédio?
Permite-nos, levar-te a poesia?

Não há nenhuma contra-indicação
-a bula cita, apenas, sensação-
De que ninguém roubou-te a euforia.

CERTEZA
Amaro Vaz

Constrói em nossa volta um imenso muro
A vida. Essa caixinha de surpresas!
E cheios de perguntas, incertezas
Vivemos como cegos, no escuro.

Tentando desvendar nosso futuro
Há sempre alguém que usa de espertezas.
Com velas coloridas sobre as mesas
Promete um amanhã mais lindo e puro.

Ciganos, cartomantes, futuristas
Com bolas de cristal, com ametistas
Arvoram-se em saber a nossa sorte.

São tantas as perguntas sem respostas
Que vejo muita gente dar as costas
À única certeza que é a morte.

7 de dezembro de 2009

VELHICE
Amaro Vaz


Tantos pardais, - nenhuma andorinha-
Vejo nas praças da minha velhice
Vem a saudade, eu vôo à meninice
E ao voar, tremula a velha asinha.

Cresci, envelheci, eu sei... dignamente
Por isso eu me orgulho do passado
Até aquele antigo passo errado
Promove o conhecer-me plenamente.

Voltando às andorinhas de outrora
Eu tento descobrir o dia e a hora
Do vôo cego... da minha despedida.

Espero, que não me expulsem, os pardais
Sou uma velha andorinha, nada mais...
Deixe-me, em paz, dizer adeus à vida.

PAIXÕES ANÁRQUICAS
Amaro Vaz


O teu amor era uma gota de orvalho
Um quase nada, um gostar pequeno
Soubesse eu... Que eras filha do sereno
Jamais, me permitiria este ato falho.

Só mesmo um cara louco, um delinqüente
Pra se envolver com uma gota abandonada
Na ponta da roseira, no galho pendurada
Exposta o sol, para morrer mais quente.

De hoje em diante, serei bem mais atento
Vou namorar a brisa.... a irmã do vento
Que vem me visitar todos os dias.

Sempre correndo, eu sei, ela volta sempre
Para dizer, que me ama, e eu tão carente
Dou crédito às novas e loucas fantasias.
OUTRAS SOMBRAS
Amaro Vaz


No pessimista o sol de cada dia
É um incômodo, a razão da sombra
A claridade, a luz, tudo lhe assombra
Tudo lhe rouba a paz, a alegria.

Que Deus me livre, desta praga humana
Que nada vê, além do próprio umbigo
Bem cedo eu aprendi, meu rumo eu sigo
Sozinho, hei de cuidar da minha chama.

Porque no pessimista, o que importa
São os débitos, defeitos, tudo anota
Nada escapa de seu giz vermelho.

Na minha vida, que é um sol de alegria
Se eu tivesse muita grana, eu doaria
A todo pessimista um espelho.

VOARES TANTOS
Amaro Vaz


Eu já voei nas asas de um cometa
Em pensamentos, eu já voei o mundo
Voei os desencontros, o submundo
Só não voei na aflição, de tarja preta.

Eu já voei, em balões de gás inerte
Nas pipas coloridas, quando criança
Voei a realidade, na lembrança
Nos carnavais voei, era o confete.

Voei, porque voar era uma tática
A vida de quem voa, não é estática
E o sonho de quem voa é o infinito.

Voei, porque jamais eu tive medo
Porque voar é o melhor brinquedo
E além do mais, ainda, o mais bonito.

TOLERÂNCIA
Amaro Vaz


Eu reconheço, é preciso tolerância
Para manter a calma, o bom senso
O ser humano, eu às vezes penso
É fruto da maldade e da arrogância.

Quando atingido, procuro em meu canto
Buscar a luz, reacender a minha chama
Não me permito o ódio, se ele inflama
Dou-lhe porrada, meto o pé, espanto.

Porém, eu sempre irei dizer... Modere!
Segura as ondas, não se meta, espere
Somente o tempo há de mudar a rota.

Não quero papo, estou de quarentena
Deu pra notar, sua mente é tão pequena
Que o verso sofre e a rima se faz torta.

27 de novembro de 2009


SENHOR DAS ESTRELAS
Amaro Vaz


Tenho um amigo, que se diz amante
Das estrelinhas que enfeitam o céu.
Vive fazendo aviõezinhos de papel
Para poder ir visitá-las no horizonte.

Ele consegue, com elas, se entender
E elas compreendem o que ele diz.
Não é loucura, é só um estar-feliz
Que faz este milagre acontecer.

Confesso, eu pensei inicialmente
Que ele fosse uma estrela cadente
Humanizada, só para me enganar.

Que tolo eu fui. Ele é apenas
Um pássaro-humano e sem penas
Capaz da louca aventura do voar.

Dedicada ao amigo-irmão Jenário de Fátima

26 de novembro de 2009


NOITES DE LUZ
Amaro Vaz


Uma estrela eu vi cruzar o céu
E despencar atrás daquele morro
Não deu pra ouvir, se pedia socorro
Só pude ver que tinha um lindo véu.

Durou seu vôo um segundo exato
Tamanha a rapidez que ela imprimia
Se eu piscasse os olhos, não veria
Toda beleza de um simples ato.

Alguém me disse que ela é cadente
Brigou com o céu, triste e descontente
Veio na terra buscar contentamento.

Se eu soubesse a língua das estrelas
Talvez pudesse, um dia, convencê-las
Que aqui na terra, também, há sofrimento.
REENCONTRO
Amaro Vaz


Parece que foi ontem, eu reclamava
Resignado, dizia que o amor
O nosso amor, rimava ele com a dor
Na contramão do sonho caminhava.

Tudo mudou, ao aprender, crescemos
Voltando a crer, sabíamos ia dar certo
Depois de um tempo corroído, incerto
Nós merecíamos, viver dias serenos.

Plantamos, no quintal, algumas flores
E na mesma cova, colocamos as dores
Pensamos: Essa mistura vai dar certo.

Porque o amor, que se deseja inteiro
Não sobrevive a dor, o tempo inteiro
Na dunas tristes de um cruel deserto.

VERSOS OMISSOS
Amaro Vaz


Eu me descubro em mares agitados
Feito um sarrafo de toco, num remanso
Feito um pássaro, sôfrego e manso
Ante os gatos, que vivem nos telhados.

Mais eu fujo, mais e mais me entranho
Mais, eu me misturo à tempestade
A minha alma perde a sensibilidade
E ao espelho, eu me vejo um estranho.

O que será de mim? Eu me pergunto...
A inconsciência procura um outro assunto
Para não ter, que me dar explicações.

Prefiro a morte. Uma ...duas...três
A ter que transformar em insensatez
Minhas idéias e as minhas emoções.
VERSO FERIDO
Amaro vaz


Ferido o verso, ferida a inspiração
A alegria desce morro abaixo
A luz, incandescente, perde o facho
O velho sim, de ontem, vira um não.

Ferido o verso, todas as belezas
Das madrugadas livres e ao luar
Não querem, mais o canto enfeitar
Porque, a noite encheu-se de incertezas.

Ferido o verso, ferido, também, sou
Abandonado e triste – não sobrou -
Ninguém interessado em meus lamentos.

Ferido o verso e ferida a poesia
O fim do encanto transforma a utopia
Num carrossel de estranhos sentimentos.

O CIRCO
Amaro Vaz


Hoje eu vou reinventar os sonhos
Montar um circo nesse meu soneto
Usar todo o meu tempo obsoleto
Pra ser criança e pra ser risonho.

Vou ser palhaço e ser o trapezista
Vender pipocas e algodão-doce
Como, se uma criancinha fosse
Este velhinho metido a artista.

Eu já me vejo... Um narigão vermelho
Com uma bermuda abaixo do joelho
Fazendo confusões e trapalhadas.

Enquanto sentadinhas nas cadeiras
As criancinhas, após as brincadeiras
Do picadeiro eu verei, dando risadas.

23 de novembro de 2009


UM DIA DE PAZ E SOL
Amaro Vaz


Bendito seja o dia que acontece
Na minha casa e na minha vida
Ele é o suor dessa gostosa lida
A fé que reafirma a minha prece.

Nele o sol tem uma cor vermelha
E azul do céu é límpido e cristalino
Como o olhar medroso de um menino
Que acompanha o vôo de uma abelha.

Assim, eu vejo a noite se achegando
E, mansamente, a vejo expulsando
O sol que ilumina a terna alegria.

Por isso, num pedaço de papel.
Escrevo: Obrigado, Pai do Céu
Por dar-me, de presente, este dia.
DELÍRIOS
Amaro Vaz


Abro a janela pra ver o domingo
Que se faz morno, sob um sol intenso
Na triste segunda-feira eu já penso
E posso vê-la, para mim, sorrindo.

Pra começar uma nova semana
Decreto, doravante, a quinta-feira.
Porque, ela antecede a sexta-feira
O dia dedicado aos pés-de-cana.

Ouvisse o meu patrão tais heresias
Talvez me desse de presente uns dias
Pra eu poder, com a preguiça passear.

Morrer de rir, “com o nada fazer”
Até a ingrata realidade vir dizer:
Esquece esse sonho e vem trabalhar.

18 de novembro de 2009

NASCER POETA
Amaro Vaz


Escrevo meus versos poeta menina
Sentindo uma dor que nunca sofri.
Escrevo ao que chora, escrevo ao que ri
A vida lá fora conduz minha sina.

Mil vezes sorrindo chorei uma rima
Já noutras chorando, no entanto sorri.
Nas coisas da vida um dia entendi:
Na dor se aprende na dor se ensina.

Se a rima anda certa o passo anda torto
O vôo é rasteiro se o mar é meu porto
Navego as alturas por contradição.

Por isso aceito a alcunha de audaz
Que o verso que eu faço a vida é quem faz
Apenas lhe empresto a minha emoção.

Poema-resposta dedicado à irmãzinha poeta
Ana Barreto
MENTIRAS
Amaro Vaz


Te amei, te amei, te amei... tanto eu te amei!
Que tempo não sobrou pra que eu me amasse.
Diante de um espelho a minha face
Era um retrato teu. Agora eu sei!

Te amei, te amei, te amei... Por que te amei?
Se em troca tu me deste o teu disfarce
Por dentro nada tinhas, que eu gostasse
Te amei, te amei, te amei... Por isso errei!

Errei, quando deixei que os teus passos
Seguissem a direção dos meus abraços
Onde constantemente adormecias.

Errei, porque não soube me conter
E agora luto para te esquecer
Te amei, te amei, te amei... Mas tu mentias!

LIMPANDO A ALMA
Amaro Vaz


Você pediu-me, pra eu limpar minha alma
Como se ela fosse o chão de um banheiro
Como se limpa o corpo sob o chuveiro
Você pediu-me, pra eu limpar minha alma.

Pedi um tempo, pra revirar o dentro
E escolher, o que abrigar em mim
Limpar a alma é descartar, enfim...
Os entulhos que lotam o sentimento.

Foi só abrir a porta e lá chegando...
O que não me agradava, eu ia jogando
Num monte de entulhos do passado.

Ao deparar-me com as velhas cicatrizes
Joguei no monte, uma por uma, as infelizes
Estava eu, de alma limpa, enfim curado.
LIMITES
Amaro Vaz


Hoje eu conheço todos os limites
Todas as farsas que a vida oferece
Qual uma aranha que cuidadosa tece
As suas armadilhas, seus convites.

Não sou de jogar fora meus palpites
Por causa do fermento o bolo cresce
A lágrima sabe o olho que a merece
Por isso choram os alegres e os tristes.

Não sou de dar exemplos aos mais novos
Mesmo na minha idade eu piso em ovos
O tempo me ensinou a ser tolerante.

Não sou mais uma criança, um menino
Por isso eu só cavalgo o meu destino
Usando como rédea um barbante.

LIMITE
Amaro Vaz


De pensamentos soltos faço a vida
Não deixo nada, acontecer em vão.
Eu vivo o sim, e vivo inteiro o não
Pois reconheço, ser difícil a lida.

Cabem no bolso as preocupações
Tenho deveres e também direitos.
No ser humano não vejo defeitos
Apenas choques de interpretações.

Só existe o certo, só existe o errado
Porque o limite, que foi desenhado
Só contemplou as coisas da razão.

Fosse mantido o imaginário traço
Creio, que haveria um maior espaço
Pra coisas frágeis, que vêm do coração.

LIBERDADE AINDA QUE EM FATIAS
Amaro Vaz


Quando a mão desprovida, pequenina
Da criança que não soube uma escola.
Faz sinal me pedindo uma esmola
Traz-me do Rio de Janeiro, uma chacina.

Nos jornais, em cada banca, em cada esquina
A comoção se fez presente como agora.
Me dói no peito a mesma dor de outrora
Porque uma dor assim jamais termina.

Porque fui me lembrar desta tragédia?
Talvez seja, porque anda solta a rédea
Porque a Justiça é falha, porque tarda.

Bandidos vão e vêm. Isso é normal!
O que me causa medo e me faz mal
É quando eles se escondem atrás da farda.

5 de novembro de 2009


LEMBRANÇAS III
Amaro vaz


Não me pergunte se já amei um dia
Se eu já tive paixões plenas, ardentes.
Se eu já chorei um mar de mil enchentes
Se eu já sorrri um oceano de alegria.

Eu tive a paz como a maior garantia
De que meus dias não seriam urgentes.
Porque um rio vê seus afluentes
Qual provedores de uma alma vazia.

Amei como quem ama o amor eterno
Tive momentos céu. Tempos inferno!
Tive momentos fama. Tive o chão!

Tive a dor mais forte, mais profunda
Que ainda hoje dói, porque inunda
De tristes lembranças o meu coração.

LEMBRANÇAS II
Amaro Vaz


Manhã de chuva intensa, sol distante
Como é distante aquele amor tão nosso.
Procuro não pensar, mas sei..não posso
A dor da ausência, ainda, me dói bastante.

Tua foto é minha única atenuante
Eu sinto a culpa, é grande o remorso
Por mais que eu fuja, menos eu me esforço
Mais eu me vejo em meu caminho errante.

Me lembro agora daquela noite calma
Que ao vavegar teu corpo, a tua alma
Tiraste os dois pés do chão num vôo solo.

Me lembro bem, dormi como uma criança
Levando na memória, na lembrança
O cheiro de perfume do teu colo.
LEMBRANÇAS I
Amaro Vaz


A sala de jantar cheia de flores
Que se espalharam ao chão depois que o vento.
Entrou sem permissão neste aposento
Beijando sem preguiça as minhas dores.

No quarto entre os lençóis dois cobertores
Me fazem crer que o meu maior momento
Não permitiu que a luz do esquecimento
Pintasse o futuro de outras cores.

Ao lado de uma velha penteadeira
Ao não ser devolvida à cristaleira
Dormia a taça com o vinho teu.

Abri minha janela, bem discreto
Deitei em minha cama olhando o teto
Só ai eu me dei conta. Ela morreu!
LÁGRIMAS NOTURNAS
Amaro Vaz


Entre quatro paredes, as noites passo
Procurando num teto enegrecido.
Um motivo, um sinal, qualquer sentido
Que devolva a certeza de um abraço.

Quando penso em você, vem o cansaço
E ao sono eu me entrego aborrecido.
Já me sinto um prisioneiro, um bandido
Um animal que alguém pegou no laço.

Nada tenho, que me traga a alegria
Sua ausência é a página vazia
De um livro apagado e sem páginas...

Só me resta ouvir a voz de um triste pranto
Que se veste de pseudo-acalanto
Ao me ver derramar as minhas lágrimas.

LÁGRIMAS ARTIFICIAIS
Amaro Vaz

Não mais quero chorar, não quero mais
Deixar que essa tristeza me domine
Que o verbo amar então nos aproxime
Que eu quero os teus sentires mais reais.

Se eu choro por coisinhas tão banais
A mente se acorrenta, se deprime
A culpa, finalmente, se redime
Porque os teus pecados são normais.

Fugir das coisas, que em nós desenhamos
Depois que em nossos corpos tatuamos
O máximo prazer que nos habita.

É o mesmo que voar sobre precipícios
Fantasiar os mais tolos artifícios
É ser um pouco ator, um louco artista.

22 de outubro de 2009

LABIRINTOS II
Amaro Vaz



A nossa vida é um louco labirinto
Nela eu me perco, nela eu me acho
Nela sou um mar e sou um riacho
E sou a consciência e sou o instinto.

Minhas andanças por suas tantas ruas
Resulta, sempre, um novo aprendizado.
Mais eu me envolvo nesse emaranhado
Mais eu conheço as maravilhas suas.

Nesse seu beijo, com gosto de hortelã
É que eu acordo em todas as manhãs
Para defender, de cada dia, o pão.

Por isso eu peço a Deus nas orações:
Preserve os labirintos das emoções
E nunca deixe me faltar a gratidão.

LABIRINTOS

Amaro Vaz




Labirintos eu andei, não tive escolha
Não havia, para mim, outra saída.
Ou cuidava, eu mesmo, da ferida
Ou a deixava crescer como a bolha.

A alma inquieta não vê dificuldade
Nas agruras de uma longa caminhada.
Ela entende, depois que for lavada
Não se deixa iludir pela saudade.

Eu sofri, compreendo... Eu sofri...
E só agora, após tudo, eu entendi
O que a dor de amor já me dizia:

“Vai em frente e não olhe para trás
Que o tempo sozinho lhe compraz,
Dor de amor não resiste à rebeldia”.

JOGO DA VIDA
Amaro vaz



Não te deixes enganar pelas aparências
Pra não seres vista, como o boi, no matadouro.
Se tu te amas, cuida primeiro de teu couro
Só é feliz, quem cumpre algumas exigências:

Mantenhas sempre um olho no peixe o outro no gato
Papai Noel é uma lenda, nunca te esqueças.
Só passam os corpos, se passam as cabeças
Manda mais, quem pode mais. Isto é um fato!

Eu vivi, cinqüenta e cinco anos, na ilusão
Acreditando, que tivesse o céu na mão
Hoje me sinto, qual umbigo de vedete.

Estou por fora de tudo. Não me conheço!
Pra sobreviver, tenho que pagar um alto preço
No jogo da vida eu estou pela bola sete.

INVERNO
Amaro Vaz



A vida é fria. Chegou o inverno!
Roupas pesadas. Muitos cobertores!
O chocolate ganha outros sabores
Vive um pulôver dentro do meu terno.

A tarde é cinza. Faz lembrar o outono!
Falta vontade de sair de casa
Sobram desejos de deitar em brasa
Fica difícil dormir. Mesmo com sono!

Bendito seja o sol de cada dia
Razão da minha grande alegria
De ter o corpo um pouco aquecido.

Bendito o vinho. Bendito o licor!
Sem eles eu não teria o teu amor
Sem teu amor, eu teria morrido.

INVASÃO DEFINITIVA
Amaro Vaz



Me faço nobre, tua casa adentro
Não pelas frestas, nem pelas janelas
Eu vou inteiro, sem as olhadelas
Nas fechaduras do meu pensamento.

Fui convidado, em nome da amizade
Um sentimento uno, entre os seres
Que impõe alguns direitos e deveres
Pra que não cresça nela a falsidade.

Entrei sorrindo, pela porta da frente
Depois que te vi, alegre e sorridente
Braços abertos, pronta pro abraço.

E o velho amigo, coisa mais singela
Que antes usava as frestas da janela
Agora tem na tua casa um espaço.

18 de outubro de 2009

INSPIRAÇÃO
Amaro Vaz


Eu, últimamente, encontro inspiração
Até na chuva que faz o dia escuro.
Nos vôos que me levam além do muro
Num grão de areia perdido no chão.

Me inspiro no teu sim, num simples não
Num beijo ousado, num olhar impuro
No colo que me prometes ser seguro
Num simples adeus, um acenar de mão.

Encontro inspiração, quando o carteiro
Me deixa esperando o dia inteiro
Encontro inspiração até na dor.

Eu, ultimamente, encontro inspiração
Porque fizeste no meu coração
Um ninho de carícias, de amor.

inSANIDADE
Amaro Vaz


Eu desatei o laço, acertei o passo
Fui passageiro de outras caminhadas.
Na mala eu carreguei todos os nadas
Que um dia deram vida ao meu fracasso.

Nenhuma lágrima, sequer um simples traço
De cicatrizes abertas, mal curadas.
Eu mesmo desenhei minhas estradas
Longas, desertas, tristes, descuidadas.

Como entender a mente de quem busca
A luz que faz o dia, a luz que ofusca
Se o brilho tem efeito transitório?

Não há nenhuma dúvida fatal
Você sempre ouvirá: Eu sou normal...
De um louco preso em um sanatório.
ILUSÕES
Amaro Vaz


É tão distante a ausência que nos une
Tão insensato o silêncio que nos fala
Tão sem sentido a paz que o peito cala
Tão triste a dor que nos machuca e pune.

Que a vida em nós apenas se resume
Numa cadeira vazia em plena sala.
Na voz que na garganta morre, entala
O choro corriqueiro, de costume.

Essa distância é mais que um sofrimento
É treva, escuridão, triste lamento
É uma lágrima que desce angustiada.

Para fazer em nós uma tempestade
Ao nos mostrar a triste realidade
De uma mentira que nos leva ao nada.
ILUSÃO DE ÓTICA
Amaro Vaz


Foi coisa de pele, de identidade.
Encheu-me a vida de inspiração.
Trouxe os meus pés de volta ao velho chão
Aos meus escuros trouxe a claridade.

Foi como um corte de faca afiada
Rasgou profundo meu corpo franzino
Mais parecia obra do destino
Como a chuva, que traz a enxurrada.

Virei seu ócio, virei seu passatempo!
O seu brinquedo, o seu contentamento.
Marido, amigo, confidente, irmão.

Tudo acabou. A culpada foi ela!
Ao insistir, em achar, que eu fosse dela
Somente um bicho de estimação.
ILUSÃO
Amaro Vaz


Ilusão é cantiga de ninar
Faz dormir o pensamento consciente.
Muda as cores, mostra tudo diferente
Que é difícil este laço desatar.

Se nos faz rir, também, nos faz chorar
Age sem medo e tão inconseqüente.
Que o iludido, se vê de repente
Com os pés no chão e a mente no ar.

Eu me iludi, depois de muitos anos
Fiz coisas loucas, fiz todos os planos
Cai de quatro, cai de maduro.

Quebrei a cara, conheci o chão.
Perdi o rumo. Perdi a direção!
E só parei, quando bati num muro.

13 de outubro de 2009


HUMANAS FUGAS
Amaro Vaz


Uma criança pura e inocente
Parada no sinal me estende a mão
Como se nos olhos eu trouxesse o pão
Para matar-lhe a fome simplesmente.

Levanto o vidro, escondo o meu rosto
Pra não rever o filme do passado
Ali... naquele posto abandonado
Ficava eu na chuva e ao sol exposto.

Eu fui um malabarista nos sinais
Entregador de pizza e de jornais
Fui, ainda, um jovem delinqüente.

Hoje eu sou um velho rabugento
Por hora, preso no congestionamento
De um passado atroz e humilhante.